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quarta-feira, 25 de março de 2009

into the wild

Happiness only real when shared.
Christopher McCandless



Vi finalmente o filme Into the Wild (O Lado Selvagem), realizado por um magistral Sean Penn, protagonizado por um surpreendente Emile Hirsch e acompanhado por uma comovente banda sonora da autoria de Eddie Vedder.

A história é verídica e deu origem ao livro (que já está na minha lista para próximas leituras...), da autoria de Jon Krakauer, no qual se baseou o filme.
Após terminar a licenciatura, Chris deixa para trás o dinheiro e os bens materiais para embarcar na viagem da sua vida com destino ao Alasca. Como a chegada não é necessariamente o mais importante, o percurso é apreciado com o desapego de quem vive com uma intensidade sincera cada momento.

Coragem ou tolice? Loucura ou noção exacerbada da realidade? Liberdade ou dependência? Independência ou solidão? Libertador embora triste... Ainda que fiquemos sem respostas (ou que sejam simplesmente diversas e até contraditórias) o mais importante é a mensagem do filme, o sentido do que é a felicidade (embora diferente para todos nós), a beleza do que é natural e primitivo e a sensação de que pior do que mentirmos aos outros é mentirmo-nos a nós próprios.

Quem viu sabe certamente do que falo. Quem não viu, deveria ver.



[O poster do filme foi encontrado aqui.]
[A primeira fotografia de Christopher McCandless foi descoberta num post interessante sobre o livro, aqui.]
[A segunda fotografia, deixada por revelar na máquina fotográfica encontrada no autocarro mágico depois da sua morte, é a imagem com que o filme termina e podem revê-la aqui, num curioso artigo sobre a carta astrológica de Chris...]

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Cegueira




Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.
[Livro dos Conselhos, escrito na contracapa de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.]

Sou suspeita. Ensaio sobre a Cegueira é um dos meus livros preferidos de José Saramago. Fiquei curiosa desde que há meses atrás li que Fernando Meirelles iria realizar a sua adaptação ao cinema. Gostei muito de Cidade de Deus e Fiel Jardineiro, mas isto pareceu-me de uma grande responsabilidade.

Blindness consegue transmitir o peso da cegueira branca e a fraqueza da condição humana em momentos de desespero. Gostei muito do filme e recomendo, a quem leu e a quem não leu o livro, a quem gosta e a quem odeia Saramago. Obriga a pensar, que é coisa que faz falta; rouba-nos a fé na humanidade, mas só para voltar a fazer-nos crer de novo. No fim, é a dignidade humana (a pouca que resta), a união, a fraternidade, o amor desinteressado de um cão e a força de uma mulher a salvar-nos, a restituir-nos a esperança perdida. Ainda que de idênticos tenhamos muito pouco, se todos formos cegos, pouco haverá a distinguir-nos para além da nossa capacidade de nos mantermos humanos.

À saída do cinema ouvi uma amiga comentar para a outra que havia sido o filme mais chocante que tinha visto. Certamente não leu o livro... Eu continuo a achar que o mais chocante é o facto de a metáfora ser tão violenta por ser verdadeira.

Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

[a imagem, retirada do filme, encontrei-a aqui, o blog-diário mantido pelo próprio realizador.]

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Morte em Veneza | Thomas Mann

Venice, upload feito originalmente por An Gobán Saor.

Como prometido, aqui fica a reacção, depois do livro lido.
Continuo sem perceber o fascínio, mas suponho que depois de ver o filme poderei ter uma opinião mais formada, pois nem sempre (ou nunca) um explica completamente ou substitui o outro. Mas imagino um filme feito de momentos que se sucedem em movimento lento - pois assim se desenrola o livro. O hipnotismo do belo - do ser físico, do ser intelectual, da cidade - Veneza.

A velhice e a morte, a juventude e a efemeridade do belo - a pedofilia platónica. A displicência da beleza física versus a consciência da maturidade intelectual (o génio). O livro é curto porque não conta uma história, é mais uma sucessão de momentos e emoções, que culminam no final fatal, cedo adivinhado - e que acaba por restituir uma certa dignidade ao protagonista, que a havia perdido, até perante si próprio, ao longo dos devaneios pessoais acerca do seu inocente (ou nem tanto, talvez fazendo lembrar uma Lolita?) objecto de desejo.

Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista (...). Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de o julgar e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente.

Do livro ficou a vontade de finalmente ver o filme e, a vontade (essa sim, imensa) de visitar aquela que é, sem dúvida, uma das mais belas cidades do mundo...

[Não imaginam o tempo que demorei a escolher esta foto entre as muitas, milhares, de belas fotos de Veneza que existem no Flickr. Percam por lá algum tempo também, vale a pena.]

terça-feira, 21 de outubro de 2008

livros

 
 

É sempre com entusiasmo que começo a leitura de um novo livro. Ainda guardando frescas na memória as sensações do livro anterior, pego num novo livro como se fosse uma missão cuja continuidade não pode ser quebrada. Posso não começar a lê-lo logo de seguida, mas escolher o próximo contemplado faz parte da acção de guardar o livro lido na prateleira. Enquanto guardo um, observo os outros e escolho um deles, depois de ler um resumo, de folhear algumas páginas, tirar e voltar a guardar uns quantos.

Dificilmente é uma acção planeada, pois irá sempre depender da sensação que tiver deixado o livro acabado de ler e da curiosidade momentânea que me pode suscitar um tema ou autor novos. Ou a vontade que tiver de ler de novo um autor que me é familiar e do qual tenho já saudades... Mas têm sido poucos os autores a que regresso.

O último livro que li, O Anticristo, de Nietzsche, deixou-me um misto de confusão e clareza no espírito. Nunca tinha lido um livro de filosofia, não faz o meu género, mas sempre tive curiosidade de ler Nietzsche.  Encontrei a postura apaixonada e radical de que estava à espera. Mas o radicalismo assusta, sobretudo quando é usado para criticar atitudes que consideramos  fundamentalistas. A crítica contra o Cristianismo é brutal e chega a ser ofensiva, o que nos leva a questionar se afinal de contas concordamos com certos pontos de vista expostos, mesmo quando pensávamos concordar.

Ainda que seja uma céptica, não acho justo que tenhamos todos que pensar da mesma maneira. As crenças de uns são as incertezas de outros... Seja como for, questionar é preciso.

Agora... é a vez de Morte em Veneza. Outro autor alemão, curiosamente. Peguei nele um pouco por acaso, enquanto recordava uma conversa que tive recentemente e em que cheguei à conclusão de que era uma das poucas pessoas à face da terra que não tinha visto o tão aclamado filme de Visconti. "Imperdoável!", disseram-me, e eu respondi que ainda vou a tempo. Para já, leio o livro, que estava já na prateleira à minha espera...

sábado, 2 de agosto de 2008

control

Nunca gostei particularmente de Joy Division. Nem mesmo no tempo em que muito ouvia The Doors e outras bandas obscuras que já não eram do meu tempo. Chego à conclusão de que a questão não era tanto não gostar, mas talvez não me dar ao trabalho de conhecer... Depois de me cansar de Love Will Tear Us Apart nas clássicas noites do Batô e de me apaixonar pela versão melosa de Nouvelle Vague decidi finalmente ouvi-la. E percebi que estava perante uma música profundamente bela e genuina no seu desapegado dramatismo. E depois ouvi outra música (outro poema) e mais outra e deixei-me intrigar pelo facto de sempre ter achado que não gostava de Joy Division.

Neste momento, depois de ver o filme Control tenho que render-me às evidências. A atmosfera do filme cativa pela omnipresença estranha de Ian Curtis. Extremamente bem estruturado, belo na nitidez do seu preto e branco imaculado, correcto nas pausas, nos silêncios e na intensidade das músicas.

Vejam-no - vale a pena deixarmo-nos hipnotizar pelo que é belo.

Don't walk away... in silence...

[a carismática imagem, que aparece também no cartaz oficial, tirei-a daqui]